Virgílio de Farias
Virgílio Alcides de Farias é representante no Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê do Movimento em Defesa da Vida (MDV), entidade ambientalista do ABC paulista e fundada em 1984.
Devido ao não intencional crescimento habitacional e fabril da região da Grande São Paulo, a represa de Billings atualmente possui pequenos trechos poluídos com resíduos populacionais e industriais. Consequentemente, apenas Taquecetuba e Riacho Grande (braços da represa) são utilizados pela Sabesp para o abastecimento de água potável.
De acordo com levantamento realizado em 2015 pela ONG SOS Mata Atlântica em 111 rios brasileiros, cerca de 23% deles possuem água ruim ou péssima. Ou seja, não pode receber tratamento para ser consumida por humanos ou irrigar plantações.
Outro fator preocupante é o período de estiagem. Por possuir um clima diversificado – que varia de equatorial (no Amazonas) a semiárido (interior do Nordeste) – o Brasil enfrenta as mais diversas adversidades relacionadas ao período de seca. Só no Estado de São Paulo, por exemplo, é possível encontrar regiões que possuem menos de um mês de seca, e outras que ficam até três meses na situação.
O Nordeste é a região do país que mais sofre com tal período. Virgílio de Farias nasceu no sertão de Pernambuco (PE) e sabe o que é sentir na pele os problemas que a época de estiagem causa: “se existe uma coisa que degrada, que humilha, que destrói a vida, é você acordar, não ter onde buscar água, não ter água para lavar o rosto, para fazer higiene. Você vê animais morrendo. Na época que a gente andava na caatinga, era aquele cheiro de carniça. Tantos animais domésticos como animais silvestres morrem pela falta de água”, conta.
Devido à falta de chuva, a população nordestina enfrenta desafios diários em busca de água potável, que demanda horas de caminhada e trabalho, relata Virgílio: “meu pai tinha uma técnica de achar água. Ele subia em um riacho, lá na caatinga, pegava uma vara de marmeleiro e saia andando naquele riacho seco. Tinha hora que a vara descia e ele dizia: aqui tem água mas tá longe. Aí ele subia de novo. Quando a vara abaixava ele dizia: essa água está mais perto. E então, eu, minha mãe e ele passávamos uma semana cavando… Aí aparecia aquilo lá, 3 a 4 metros de profundidade. E era pouquinha água. Para encher uma ou duas latas passava o dia inteiro. Para pegar, minha mãe levantava 3, 4 horas da madrugada, botava um pote na cabeça e ia. Chegava lá e ia enchendo com a cuia, porque se ela chegasse mais tarde e o sol já tivesse saído, os animais bebiam toda a água”.
Tal situação também pode ser analisada sob o ponto de vista do direito humano. Todos possuem direitos básicos à vida e a água, consequentemente, é um deles. Para Virgílio, por ser um direito, a água não deve ser considerada uma mercadoria, e sim “de acesso universal a todos, independente de classe social. Nós temos instrumentos que garantem o acesso à água, mas muitas vezes não são colocados em prática para essa finalidade”.A escassez e racionamento de água também podem ser associados ao sistema de distribuição no Brasil. De acordo com estudo realizado pelo Instituto Trata Brasil a partir de dados disponibilizados pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), cerca de 38% da água potável, que passa pelo sistema de distribuição, é desperdiçada. Tal situação ocorre devido a problemas de vazamento no processo de produção, tratamento e distribuição.
Flávia Gomes Gasparini
