Gerson Salviano
O pesquisador do Centro de Tecnologias Ambientais do Instituto de Pesquisas Tecnológicas Gerson Salviano representa atualmente o órgão estadual (IPT) no comitê do Alto Tietê. Ele conta que anteriormente a relação entre a população e o comitê era distante, e um dos fatores que contribuíram para a reaproximação foi um período de estiagem que São Paulo enfrentou. “A preocupação da população com esse ‘ouro azul’ que nós temos, se intensificou por conta da experiência de São Paulo durante a crise hídrica de 2015”, aponta Salviano.
Entre os anos de 2014 e 2016 a Região Sudeste do Brasil foi afetada por um período de seca que teve seu ápice durante os meses de maio a setembro de 2015, ocasionando uma crise hídrica que afetou quase metade da população de São Paulo. Segundo o Centro de Estudos e Pesquisas em Engenharia e Defesa Civil, cerca de 20 milhões de pessoas de 68 municípios paulistas, inclusive a capital, entraram em racionamento de água nesse período. Por conta disso, o pesquisador reconhece a importância do comitê em lembrar a sociedade da economia de água, pois, segundo ele, quando não há algum desastre, a população vai se esquecendo da prevenção.
Salviano observa que quando a crise foi amenizada, a população começou a abusar novamente, desperdiçando água como se tivesse esquecido dos problemas enfrentados nos anos anteriores. Portanto, as ações de cuidados com a água não devem cessar: “devemos trabalhar insistentemente nos três segmentos do comitê, envolvendo principalmente a sociedade, pois, se a gente não envolver a sociedade, eu acho que é dinheiro jogado no lixo, porque é o usuário que tem que saber qual a melhor maneira de economia e cuidados com a água”.
Para o pesquisador, a implantação da educação ambiental dentro das escolas é o caminho para expandir as ações de conscientização sobre o uso da água e assim evitar uma nova crise, e o comitê deve fazer projetos de alto impacto na preservação e controle de qualidade das águas.
Além dos problemas acarretados pela estiagem, quando há períodos de cheia e as inundações urbanas acontecem, o comitê precisa lidar com isso também, no entanto, nem sempre todos os membros têm o conhecimento necessário para enfrentar tal situação e planejar estratégias, avalia Salviano. De acordo com ele, os representantes do Estado normalmente têm esse conhecimento técnico, mas as prefeituras e sociedade civil não costumam ter. “É um desafio elevar todos os participantes a esse nível de conhecimento. Temos que integrar mais os temas e nivelar o conhecimento técnico de cada segmento para assim ter uma melhora na gestão”, afirma.
A principal área de atuação do pesquisador abrange desastres naturais com enfoque em erosão, assoreamento e deslizamento, e ele percebe que tais questões não são exploradas no dia a dia do comitê, havendo um negligenciamento na abordagem desses assuntos: “não temos que pensar somente na água, pois, no momento em que se tem um deslizamento, os sedimentos chegarão nas drenagens e afetarão a qualidade da água. Temos que começar a trabalhar esses parâmetros para que o colegiado possa entender que tudo está ligado a recursos hídricos”.
Para que tais questões sejam solucionadas, é preciso que cada segmento do comitê esteja presente nas reuniões e participe ativamente das deliberações, porém, Salviano nota que há um esvaziamento por parte da sociedade civil e dos municípios, dificultando assim o bom desenvolvimento dos debates. Segundo ele, isso acontece pela falta de recursos para a sociedade se deslocar até o local da reunião, e as prefeituras normalmente não comparecem por terem outros afazeres que classificam como mais importantes. Como alternativa para resolver tal problema, o pesquisador espera que futuramente as reuniões do comitê possam ser feitas online, para que assim todos possam participar e contribuir para uma gestão de qualidade dos recursos hídricos da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê.
Bruna Tastelli
